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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mar

mar4

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal 
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

 

Sophia Mello Breyner

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Intervalo

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Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Coral"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Porque em mim há sempre gaivotas

 2429388

Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!

Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!

Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!

Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam voo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a VIDA!...

Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"

Imagem: http://olhares.aeiou.pt/come_fly_with_me_foto2429388.html

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

e.................... que o AMOR volte ao Mundo para Sempre.

1982nascimento
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e de paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Um Ano de 2009 Pleno de Paz, Pão, Saúde e Alegria, para todos Vós!

Ary dos Santos

Imagem: http://images.google.pt/

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

NATAL

 Diapositivo4

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

domingo, 14 de dezembro de 2008

FALAVAM-ME DE AMOR

Presépio

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979

domingo, 30 de novembro de 2008

A cavalo no vento

image 
A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?
. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

 David Mourão Ferreira
Canto II
Os Quatro Cantos do Tempo


 

sábado, 2 de agosto de 2008

A Felicidade exige valentia






















"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não
esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no
recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."


Fernando Pessoa


AMIGOS
AGRADEÇO ATENÇÃO E CARINHO DEMONSTRADO. BREVEMENTE IREI VISITÁ-LOS.
OBRIGADO E UM ABRAÇO

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Mar

 Água  

Antes que o sonho (ou o terror) tecera

mitologias e cosmogonias,

antes que o tempo se cunhasse em dias,

o mar, sempre o mar, já estava e era.

Quem é o mar? Quem é o violento

e antigo ser que destrói os pilares

da terra, e é só um e muitos mares,

e abismo e resplendor e azar e vento?

Quem o olha vê-o pela vez primeira,

sempre. Com o assombro tal que as coisas

elementares deixam, as formosas

tardes, a lua, o fogo da fogueira.

Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia

que virá logo após minha agonia.

 

Poema de Jorge Luis Borges, "IN  Rosa do Mundo-2001 Poemas para o Futuro" da Assírio & Alvim

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Ti, Esperança

A ti, que nos dás força,

A ti, que nos impões

simplicidade.

A ti, que nos acordas

e com o rosto sereno

nos ergues de manhã.

A ti, que nada pedes

a não ser um pouco de música

e nada exiges

e nos dás a tua própria ternura.

A ti, que diariamente nos acolhes

e nos trazes riso fresco

e nos dás uvas

e nos fazes cantar

nas horas difíceis.

A ti, que ofereces água

a todos que passam

e mostras um caminho

aos poucos iluminados.

A ti, que com a tua dança,

o teu ritmo, o teu fogo

transformas as paisagens

e deixas ruas cor de ouro

e deixas árvores cor de linho.

A ti, que estás suspensa na noite

como uma lua branca,

e nos enches com a tua claridade

e nos dás esta grande confiança,

esta alegria imensa de crianças.

A ti esperança, eu dedico

agora e sempre

este poema.

 

João Rui de Sousa (1928) "IN De Palvra em Punho"

Fotografia: Rarindra Prakarsa

terça-feira, 24 de junho de 2008

JOSÉ

afternoon delight

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Fotografia: Bianca Van Der Werf

sábado, 21 de junho de 2008

Por artes mágicas

Apresentação2

Por artes mágicas

e outras lógicas

nos rigores do mar

nas velas brancas

como espuma de ar

derribando os continentes

e as ilhas

por onde andei

nas noites e nos dias

me aventurei

ao interior dos vulcões

e vi

nas noites do sonho

e utopia,

a lua clara

em pleno dia.

Vieira Calado " In Arabescos"

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Plateia

Não sei quantos seremos, mas que importa?!

Um só que fosse, e já valia a pena.

Aqui, no mundo, alguém que se condena

A não ser conivente

Na farsa  do presente

Posta em cena!

 

Não podemos mudar a hora da chegada,

Nem talvez  a mais certa,

A da partida.

Mas podemos fazer a descoberta

Do que presta

E não presta

Nesta vida.

 

E o que não presta é isto, esta mentira

Quotidiana.

Esta comédia desumana

E triste.

Que cobre de soturna maldição

A própria indignação

Que lhe resiste.

 

Miguel Torga (1907-1995) "IN De Palavra em Punho"

Imagem: NET

domingo, 15 de junho de 2008

O Cacilheiro

Cacilheiro.jpg

Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.
Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa

Ary dos Santos (1937-1984)


Fotografia: Net


quarta-feira, 11 de junho de 2008

As amoras

 


O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

 

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

Fotografia: Net

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades






















Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís de Camões

sábado, 7 de junho de 2008

Porque será que desejo

Bola

Porque será que desejo

aquilo que não preciso?

Por que a alma um fogo tem,

Quente, abstracto cobiço,

Que só busca o mais além!

 

Porquê, senão p'la razão

Da alma só alma ser?

Quando em seu todo ocultada,

Quem pode a causa saber

Em [suas] leis disfarçada?

 

Mas isto não interessa.

O que importa é o sofrer

e a tensão que provém

De o pensar já predizer

Que o que se quer não se tem.

 

Fernando Pessoa "IN Poesia Inglesa II, tradução de Luisa Freire"

terça-feira, 3 de junho de 2008

Canção

espaço

Que saia a última estrela

da avareza da noite

e a esperança venha arder

venha arder no nosso peito

 

E saiam também os rios

da paciência da terra

É no mar que a aventura

tem as margens que merece

 

E saiam todos os sóis

que apodreceram no céu

dos que não quiseram ver

- mas que saiam de joelhos

 

E das mãos que saiam gestos

de pura transformação

Entre o real e o sonho

seremos nós a vertigem.

 

Alexandre O'Neill  "In Poesia Completa"

domingo, 1 de junho de 2008

Quinta-Feira Santa

Como é possível vermos nesta terra,

numa terra afinal rica e fecunda,

crianças reduzidas à miséria,

nutridas p'la mão fria da usura?

 

Pode este apelo trémulo ser um canto?

Pode ele ser um canto de alegria?

Há entre nós tantas crianças pobres?

Que terra de miséria a nossa terra!

 

E para elas nunca o sol rebrilha;

para elas os campos não produzem;

para elas, caminhos só de espinhos;

para elas, eterno é o Inverno.

 

É preciso onde quer que brilho o sol,

é preciso onde quer que a chuva caia

que nunca mais crianças tenham fome

nem a pobreza mais lhes tolha a alma.

 

William Blake (1757-1827) "IN Vozes da Poesia Europeia"

Fotografia:Net

Hoje no Dia Mundial da Criança, não esqueçamos que há Crianças com fome e para quem o sol nunca brilha!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Maldição

Maldito seja o que busca matar o sonho dos homens.

Maldita seja a vergonha.

Maldito seja o pesar.

Maldito seja o silêncio que nos cala antes da morte.

Maldito seja o que é falso, ou induz em confusão.

Malditos sejam os bons que o são só por piedosos.

Maldito seja o cruel por ódio ou por pidade.

Maldito seja o que aceita argumentos que não pesa.

Maldito seja o que força alguém a acreditá-lo.

Maldito seja o orgulho do que o alheio despreza.

Maldito seja o que finge humildades que não tem.

Maldito seja o que faz dos desejos maldição.

Maldito seja o desejo de só nada desejar.

Maldito seja o que inveja o pão de que não precisa.

Maldito seja o que encontra na fome conformação.

Maldito seja o que é feio por gosto da fealdade.

Maldita seja a beleza que à vida seja traição.

Maldita seja a riqueza que de fartura não serve.

Maldita seja a fartura quando a todos não chegar.

Maldito seja o saber arvorado em tirania.

Maldito seja o que ignora e não dá por ignorar.

Maldito seja o que impõe o que para si não quer.

maldito seja o que jura contra a sua convicção.

Maldito seja o que alcança sem o esforço de colher.

Maldito seja o temor de luz demais nos cegar.

 

Armindo Rodrigues "IN O Poeta Perguntador"

Fotografia: Net