quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A SECRETA VIAGEM

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados , de mão dada ...
Como podem só os dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem.
Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa , passa...alheio aos meus sentidos.
-Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

 David Mourão-Ferreira (1927-1996)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

CONFIDÊNCIAS









Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas
que ainda não viajei!
traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça
não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar te as minhas viagens,
aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei,
escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva
exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça
é tudo tão verdade!

Almada Negreiros (Obra)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

POEMA À MÃE

Dandre

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio de um laranjal...
Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

 

Eugénio de Andrade  (1923-2005)

Os Amantes sem Dinheiro (1950)

domingo, 27 de janeiro de 2008

NO PONTO ONDE O SILÊNCIO

After the journey..


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Sophia de Mello Breyner

Fotografia:Vasilis Fotopoulos

sábado, 26 de janeiro de 2008

Dor Repartida

Drowning Fall

Cinzento porque chovia
Todo o céu que me cobria
Comigo chorava tanto
Mas ali à minha frente
Afastado e tão presente
O rio secou o meu pranto

No fundo das suas águas
Adormeceu minhas mágoas
E acordei menos triste
A dor ao mar entregava
Enquanto às margens contava
A razão porque partiste

Sem ti seguirei viagem
Como o rio que larga a margem
E continua sozinho
Com a força da corrente
Que se reparte entre a gente
Hei-de encontrar o caminho

É na força da corrente
Que se reparte entre a gente
Que eu encontro o meu caminho

Letra: Aldina Duarte, Manuela de Freitas

Interprete: Camané

Fotografia: AmirAli Sharifi