segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Eu não me entendo














Entrego a minha voz ao coração do vento
E quanto mais água dos meus olhos corre
Mais fogo acendo
Eu não me entendo
Eu não me entendo

E por ti já gastei o pensamento
Ai amor, ai amor, se o tempo
Já gastou, já gastou o nosso tempo
Eu não me entendo
Eu não me entendo

A primavera do meu tempo
Já gastei a primavera do meu tempo
Já fiz da boca jardins de vento
E não me entendo
E não me entendo
Eu não me entendo

José Luis Gordo

sábado, 2 de fevereiro de 2008

AS DANÇAS DA NOITE

 Beija-flor Tesoura (Eupetomena macroura) - Swallow-tailed-Hummingbird 25 10-06-07 123 - 9

Um sorriso caiu na relva.
Irrecuperavelmente!

E como irão perder-se
As tuas danças nocturnas. Na matemática ?

Tão puros saltos e espirais -
certamente viajam

Eternamente pelo mundo, não hei-de ficar
Despida de belezas, o dom

Do teu pequeno sopro, o cheiro
A terra molhada, lírios, lírios.

A sua carne não aguenta aproximações
Frios vincos de um ego, o narciso.

E o tigre que se embeleza a si próprio -
Sinais e uma chuva de pétalas de fogo.

Os cometas
Têm um espaço tão grande para atravessar,

Tanta frieza, esquecimento,
Assim se esfumam os teus gestos -

Calorosos e humanos, depois a sua luz rosa
A sangrar e a pelar

Entre a negras amnésias do céu
Porque me dão

Estas luzes, estes planetas
Caindo como bençãos, como línguas de luz

De seis pontas, brancas
Nos meus olhos, lábios, cabelo

Ao tocarem, desfazem-se.
Em lugar nenhum.

 

Sylvia Plath (1932-1963)

in Ariel, edição da Relógio d'Água
(tradução de Maria Fernanda Borges)

O AMOR

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Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos
,e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

Fotografia: irina todorova

Nuno Júdice
in Cartografia de Emoções (2001)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

"Fados" nomeado para Prémios Goya










Camané participa em "Fados"

O filme "Fados", de Carlos Saura, recebeu segunda-feira, no Palafox em Madrid, o Prémio de Melhor Documentário do Círculo de Escritores Cinematográficos

O filme de Saura está ainda nomeado para duas categorias dos Prémios Goya, atribuídos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Espanha, que serão entregues no próximo dia 03 de Fevereiro em Madrid. "Fados" é candidato a Melhor Documentário ao lado de "El productor", de Fernando Méndez-Leite, "Invisibles", de vários realizadores, entre eles Isabel Coixet e Wim Wenders, e "Lucio", de Aitor Arregui e José Maria Goenaga. "Fado da saudade", de Fernando Pinto do Amaral e Joaquim Campos, interpretado por Carlos do Carmo e que integra a banda sonora de "Fados", está nomeado para a Melhor Canção Original. Além de "Fado da Saudade" estão também nomeados "Circus honey blues", de Victor Reyes e Rodrigo Cortés, no filme "Concursante", "Happy, happy Chueca", de Diossa e Malyzzia, no filme Chuecatown", "La vida secreta de las pequeas cosas", de David Broza e Jorge Drexer, em "Cándida", e "Pequeo paria", de Daniel Melingo, em "El nio de barro". O fado de Carlos do Carmo faz parte do seu mais recente álbum, "À noite", lançado o ano passado. "Fados" teve a sua estreia mundial no Festival de Toronto, no passado dia 14 de Setembro. O filme de Saura contou com o apoio financeiro de um milhão de euros da Câmara de Lisboa, através da EGEAC (Empresa municipal de Equipamentos e Animação Cultural), e também do Turismo de Portugal. Esta co-produção luso-espanhola, com 85 minutos de duração, conta com a participação, entre outros, dos fadistas Carlos do Carmo, Mariza, Argentina Santos, Camané, Maria da Nazaré, Vicente da Câmara, Ricardo Ribeiro, do guitarrista Ricardo Rocha, dos cantores Chico Buarque, Lura, Caetano Veloso e Lila Downs, e do bailarino Patrick de Bana. O filme foi visto em Portugal, no ano passado, por 27751 espectadores e esteve 44 dias em cartaz, segundo dados do Instituto do Cinema e Audiovisual.

Fonte: SIC