quinta-feira, 29 de maio de 2008

Maldição

Maldito seja o que busca matar o sonho dos homens.

Maldita seja a vergonha.

Maldito seja o pesar.

Maldito seja o silêncio que nos cala antes da morte.

Maldito seja o que é falso, ou induz em confusão.

Malditos sejam os bons que o são só por piedosos.

Maldito seja o cruel por ódio ou por pidade.

Maldito seja o que aceita argumentos que não pesa.

Maldito seja o que força alguém a acreditá-lo.

Maldito seja o orgulho do que o alheio despreza.

Maldito seja o que finge humildades que não tem.

Maldito seja o que faz dos desejos maldição.

Maldito seja o desejo de só nada desejar.

Maldito seja o que inveja o pão de que não precisa.

Maldito seja o que encontra na fome conformação.

Maldito seja o que é feio por gosto da fealdade.

Maldita seja a beleza que à vida seja traição.

Maldita seja a riqueza que de fartura não serve.

Maldita seja a fartura quando a todos não chegar.

Maldito seja o saber arvorado em tirania.

Maldito seja o que ignora e não dá por ignorar.

Maldito seja o que impõe o que para si não quer.

maldito seja o que jura contra a sua convicção.

Maldito seja o que alcança sem o esforço de colher.

Maldito seja o temor de luz demais nos cegar.

 

Armindo Rodrigues "IN O Poeta Perguntador"

Fotografia: Net

Desafio

[Raiva.jpg]

A Amiga Carminda do Forum Cidadania desafiou-me a publicar aqui os meus pequenos  ódios de estimação. Aqui vão os 6, mais haveria a citar, mas bastam estes.

  • Detesto gente falsa
  • Detesto Invejosos
  • Odeio gente mesquinha  e oportunistas
  • detesto arrogantes (a  arrogância dos nossos governantes odeio mesmo)
  • Detesto prepotência, injustiças,
  • odeio que façam de mim parva

Este desafio  passo aos amigos que o quiserem aceitar  e responder.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Na ilha por vezes habitada

Água (7) 


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

 

José Saramago


(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

sábado, 24 de maio de 2008

CARTA A MEUS FILHOS

 Dining Room Chair

Sobre os fuzilamentos de Goya

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós.

Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.

Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. ~

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão.

Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».

E. por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

JORGE DE SENA

Fotografia: Kate Callahan