terça-feira, 10 de junho de 2008

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades






















Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís de Camões

sábado, 7 de junho de 2008

Porque será que desejo

Bola

Porque será que desejo

aquilo que não preciso?

Por que a alma um fogo tem,

Quente, abstracto cobiço,

Que só busca o mais além!

 

Porquê, senão p'la razão

Da alma só alma ser?

Quando em seu todo ocultada,

Quem pode a causa saber

Em [suas] leis disfarçada?

 

Mas isto não interessa.

O que importa é o sofrer

e a tensão que provém

De o pensar já predizer

Que o que se quer não se tem.

 

Fernando Pessoa "IN Poesia Inglesa II, tradução de Luisa Freire"

quinta-feira, 5 de junho de 2008

País a pontapé

pes

A mentalidade submissa. Os dias engarrafados, anestesiados.

O presente em zapping, sem comando, visto do sofá.

O futuro daqui a nada, mas pré-pago, panorâmico e digital.

A liberdade de sermos apenas o que quiserem fazer de nós.

Financiaram-nos o que não queríamos nem precisávamos, a juros bonificados.

Depois, em suaves prestações ou pagando mais tarde. No fim de contas, levam-nos a pele, os ossos, os sonhos, como sinal. E uma vida inteira para amortizar.

Foi lá atrás que deixamos de ser cidadãos para passarmos a clientes.

Fazemos downloads das nossas ansiedades e vamos para a cama com o messenger.

Taxaram-nos a esperança, o horizonte, o hoje para financiar o amanhã.

Disseram-nos que, em última instância, o Estado regularia, velaria por nós. Só não nos disseram que o Estado já era também cliente, jogava na bolsa e no «off-shore», tinha vícios caros e amantes no privado. Esconderam-nos que o Estado já nem sequer regula bem. E, às vezes, não regula de todo.

Não sei quando começaram a falar-nos de livre iniciativa, economia de mercado, liberalização disto e privatização daquilo. Tudo em nosso nome, iríamos perceber a sensação. A concorrência em benefício do consumidor, mais opções, melhor qualidade. Não nos disseram o que queriam em troca. Não nos disseram quanto custava. Não perguntamos. E agora descobrimos que o seguro não cobre todos os riscos.

Aqui, despede-se e «reestrutura-se» em almoços de camarão da costa, moet & chandon e jaguar à porta. Congelam-se ordenados entre baldes de gelo e um «15 anos.» Fumam-se quatro salários mínimos em charutos, por mês, a discorrer sobre a crise e as dificuldades das empresas.

Original ou réplica, somos o que vestimos.

Somos igualmente o que viajamos, o que compramos, o que almoçamos, o que vemos. Não sei quando deixamos de ser simplesmente…humanos.

Votamos pouco e mal, mas elegemos convictamente marcas e anúncios, estamos decididos a ser a geração Nike ou Adidas e a referendar a Gant ou a Armani.

Aceitamos ficar sem tecto e almoço, mas nunca sem rede.

Vamos a Cancun, Natal e Varadero para ser vistos e mostrar que lá estivemos.

Por vezes, jantamos comida de design porque é «moda» e estamos na moda porque é «in».

Pagamos e bebemos água como se fosse Barca Velha.

Buscamos o caminho mais curto para a existência e o equilíbrio emocional no spa, no pilates, na auto-ajuda e no quem nos acuda. Ao farmacêutico, ao psiquiatra e ao personal trainer só falta serem amigos lá de casa.

Endividamo-nos de ilusões, maquilhamos as feridas e angústias, retocamos a ideia que temos de nós e envelhecemos alegremente: tristes e infelizes, mas mais novos, saudáveis e atléticos graças à cirurgia estética e ao ginásio, IVA incluído.

Somos o zero à esquerda das decisões, a estatística gorda da fome, da pobreza, da desigualdade, a escanzelada percentagem de decência e dignidade. Somos, como numa cantiga, «intelectuais de bronzeado» e «elite de supermercado». Somos tema de conferências e colóquios, objecto de sondagens e estudos. Estamos nos resultados, mas nunca entramos na equação. Subtraem-nos nos lucros e fazem-nos cúmplices de prejuízos.

Mas, felizmente, nem tudo está perdido.

Por estes dias, vamos pôr uma bandeirinha na varanda, o disco do Roberto e do Tony, o cachecol no pescoço e comprar «sem juros, pague depois» aquele plasma muito em conta para ver o Ronaldo em grande e os filmes dos pequenos. Gritaremos até às entranhas pela pátria, pela finta, pelo cruzamento, pelo remate. Faltaremos ao trabalho, à família, aos amantes, à «manif» e aos compromissos. Em Junho seremos todos portugueses, todos iguais, todos diferentes: ninguém cobrará dívidas, até porque ninguém as pagaria. Estaremos todos por Portugal em harmonia fiscal. Chamaremos Scolari de nosso, abriremos conta «no banco de sempre» e correremos atrás do autocarro da Galp e da selecção como no anúncio da televisão porque, entretanto, até boicotamos a gasolina.

De festinha em festança, talvez a sorte nos sorria a pontapé ou à cabeçada.
Quando regressarmos ao que efectivamente somos, estaremos, de novo, orgulhosamente sós. Sempre entre futebol e Fátima, entre um golo e uma oração. E de regresso ao velho fado.

Fonte:   Visão - Opinião  Miguel Carvalho

terça-feira, 3 de junho de 2008

Canção

espaço

Que saia a última estrela

da avareza da noite

e a esperança venha arder

venha arder no nosso peito

 

E saiam também os rios

da paciência da terra

É no mar que a aventura

tem as margens que merece

 

E saiam todos os sóis

que apodreceram no céu

dos que não quiseram ver

- mas que saiam de joelhos

 

E das mãos que saiam gestos

de pura transformação

Entre o real e o sonho

seremos nós a vertigem.

 

Alexandre O'Neill  "In Poesia Completa"

domingo, 1 de junho de 2008

Quinta-Feira Santa

Como é possível vermos nesta terra,

numa terra afinal rica e fecunda,

crianças reduzidas à miséria,

nutridas p'la mão fria da usura?

 

Pode este apelo trémulo ser um canto?

Pode ele ser um canto de alegria?

Há entre nós tantas crianças pobres?

Que terra de miséria a nossa terra!

 

E para elas nunca o sol rebrilha;

para elas os campos não produzem;

para elas, caminhos só de espinhos;

para elas, eterno é o Inverno.

 

É preciso onde quer que brilho o sol,

é preciso onde quer que a chuva caia

que nunca mais crianças tenham fome

nem a pobreza mais lhes tolha a alma.

 

William Blake (1757-1827) "IN Vozes da Poesia Europeia"

Fotografia:Net

Hoje no Dia Mundial da Criança, não esqueçamos que há Crianças com fome e para quem o sol nunca brilha!