sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Ti, Esperança

A ti, que nos dás força,

A ti, que nos impões

simplicidade.

A ti, que nos acordas

e com o rosto sereno

nos ergues de manhã.

A ti, que nada pedes

a não ser um pouco de música

e nada exiges

e nos dás a tua própria ternura.

A ti, que diariamente nos acolhes

e nos trazes riso fresco

e nos dás uvas

e nos fazes cantar

nas horas difíceis.

A ti, que ofereces água

a todos que passam

e mostras um caminho

aos poucos iluminados.

A ti, que com a tua dança,

o teu ritmo, o teu fogo

transformas as paisagens

e deixas ruas cor de ouro

e deixas árvores cor de linho.

A ti, que estás suspensa na noite

como uma lua branca,

e nos enches com a tua claridade

e nos dás esta grande confiança,

esta alegria imensa de crianças.

A ti esperança, eu dedico

agora e sempre

este poema.

 

João Rui de Sousa (1928) "IN De Palvra em Punho"

Fotografia: Rarindra Prakarsa

terça-feira, 24 de junho de 2008

JOSÉ

afternoon delight

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Fotografia: Bianca Van Der Werf

sábado, 21 de junho de 2008

Por artes mágicas

Apresentação2

Por artes mágicas

e outras lógicas

nos rigores do mar

nas velas brancas

como espuma de ar

derribando os continentes

e as ilhas

por onde andei

nas noites e nos dias

me aventurei

ao interior dos vulcões

e vi

nas noites do sonho

e utopia,

a lua clara

em pleno dia.

Vieira Calado " In Arabescos"

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Plateia

Não sei quantos seremos, mas que importa?!

Um só que fosse, e já valia a pena.

Aqui, no mundo, alguém que se condena

A não ser conivente

Na farsa  do presente

Posta em cena!

 

Não podemos mudar a hora da chegada,

Nem talvez  a mais certa,

A da partida.

Mas podemos fazer a descoberta

Do que presta

E não presta

Nesta vida.

 

E o que não presta é isto, esta mentira

Quotidiana.

Esta comédia desumana

E triste.

Que cobre de soturna maldição

A própria indignação

Que lhe resiste.

 

Miguel Torga (1907-1995) "IN De Palavra em Punho"

Imagem: NET

domingo, 15 de junho de 2008

O Cacilheiro

Cacilheiro.jpg

Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.
Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa

Ary dos Santos (1937-1984)


Fotografia: Net