sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal de quê?

 

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Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
... Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
....................................
Jorge de Sena (Natal de 1971)

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Parlamento elege o Povo

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O primeiro-ministro disse hoje, que os professores devem emigrar para os países da lusofonia porque cá não têm emprego. Esta declaração é a prova definitiva do que eu há muito suspeitava: os partidos do “arco do poder” (maneira curiosa de dizer que são democratas desde que sejam eles a mandar) preparam-se para aprovar uma nova constituição SÓ COM UM ARTIGO: “O parlamento (isto é, eles, os do “arco do poder”) elege o POVO”!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Cantiga de Maio

rompi

Da prisão negra em que estavas

A porta abriu-se p’ra rua.

Já sem algemas escravas,

Igual à cor que sonhavas,

Vais vestida de estar nua.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Na rua passas cantando,

E o povo canta contigo.

Por onde tu vais passando

Mais gente se vai juntando

Porque o povo é teu amigo.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Entre o povo que te aclama,

Contente de poder ver-te,

Há gente que por ti chama

Para arrastar-te na lama

Em que outros irão prender-te.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Muitos correndo apressados

querem ter-te só p’ra si;

e gritam tão de esganados

só por tachos cobiçados,

e não por amor por ti.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Na sombra dos seus salões

De mandar em companhias,

Poderosos figurões

Afiam já os facões com que matar alegrias.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

E além do mar oceano

O maligno grão poder

Já se apresta p’ra teu dano,

Todo violência e engano,

para deitar-te a perder.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Com desordens, falsidade,

economia desfeita;

com calculada maldade

promessas de felicidade

e a miséria mais estreita.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Que muito povo se assuste,

Julgando que és tu culpada,

Eis o terrível embuste

Por qualquer preço que custe

Com que te armam a cilada

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Tens de saber que o inimigo

Quer matar-te à falsa fé.

Ah tem cuidado contigo:

Quem te respeita é um amigo

Quem não respeita não é.

Liberdade, liberdade,Tem cuidado que te matam.

Jorge de Sena