segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Carta do Exílio

 

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I
Te saúdo... te beijo
Que mais posso dizer

Por a onde começar e como terminar
O tempo gira sem descanso
E tudo que passou, no meu exílio
Uma bolsa em que ponho pão seco
Um caderno em que descarrego às vezes
Em que cuspo todo meu ódio
Por onde começar
Tudo o que se disse ou o que se dirá,
Pode terminar com um abraço ou um aperto de mãos
Fará que o exilado volte para casa
Fará cair a chuva
Fará que brotem penas
Nas asas do pássaro perdidos...
Esmagado
Por onde começar
Te saúdo... te abraço, depois...
II
Eu disse no rádio... digam-lhe que estou bem
Disse ao pássaro
Se vais para ela
Não me esqueças e diz-lhe
Que eu me sinto bem
Que eu me sinto bem
Meus olhos continuam vendo a luz
A lua segue no céu
E meu velho traje
Não se esfarrapou até agora
Rasgou-se um pouco
Mas eu o cosi... e ainda me cobre
Agora sou um jovem de vinte anos
Pensa um pouco... tenho vinte anos
E sou como todos os jovens
Ó mãe
Afronto a vida
E suporto a carga que cada homem leva
Trabalho
Em um restaurante... lavo pratos
Preparo o café dos clientes
E colo em meu rosto triste um sorriso
Para entrar no tom
III
Me sinto bem
Tenho vinte anos
Sou como todos os jovens
Fumo, me debruço sobre os muros
E assobio às meninas
Como os outros
Porque são agradáveis as meninas ó irmãos
Sem elas
Quão mais amarga nos seria a vida
E meu companheiro disse... tens fome?
Sinto que tenho fome... tens pão?
"Irmãos... que dignidade se pode ter
Quando se tem fome?"
Me sinto bem
Me sinto bem
Tenho um pão dourado
E uma cestinha com grãos
IV
Ouvi no rádio
A mensagem dos exilados... aos exilados
Todos disseram: estamos bem
Ninguém está triste
Como está meu pai?
Continua, como sempre, amando
A coração
E os filhos...
A terra e as oliveiras
Como estão meus irmãos
Converteram-se por acaso em funcionários
Um dia ouvi meu pai dizer
Todos serão professores
(Passarei fome para comprar-lhes livros)
em nossa aldeia ninguém sabe ler
como vai nossa irmã
cresceu,
pediram-na por ventura em casamento?
Como está minha avó
Diante da porta como de costume?
Nos abençoa sempre?
Como anda a casa?
E nosso gasto umbral... a lareira...as portas?
Ouvi no rádio
A mensagem dos exilados... aos exilados
Tudo vai bem
Mas eu estou triste
Me assaltam as dúvidas... devoradoras
O rádio não me trouxe notícias de vocês
Nem sequer tristes
Nem sequer tristes.
V
A noite - ó mãe - é um lobo faminto, cruel
Que acossa o estrangeiro em todas as partes
E que abre o horizonte aos fantasmas
O bosque de álamos sempre enlaça os ventos
Que crime cometemos - ó mãe
Para morrer duas vezes
Uma vez na vida
E outra na morte
Sabes tu quem faz brotar lágrimas?
Suponha que um dia esteja doente
E que meu corpo seja abatido pelo mal
A noite guardará a lembrança
De um refugiado que até aqui chegou e não voltou nunca para seu país
A noite lembrará
Um refugiado morto sem sepultura
Ó, bosque de álamos!... lembrarás tu
Que este que foi abatido debaixo de tua sombra
Era um homem
Lembrarás que sou um homem
E preservarás meu cadáver da capacidade dos corvos?
Mãe... ó mãe
A quem escrevo estas folhas
Que correio te as levará
As vias terrestres, aéreas e marítimas
Estão fechadas
Igual que o horizonte
E tu mãe
E o senhor meu pai, meus irmãos, meus parentes, os companheiros você
Oxalá estejam vivos
Talvez estejam mortos
Talvez, como eu, estejam sem endereço
Que dignidade pode ter o homem
Sem pátria
Sem bandeira
Sem endereço
Que dignidade?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Frustração

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Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Miguel Torga, in 'Diário XV'

sábado, 30 de junho de 2012

Portugal Podre (2012) performance efémera e mal cheirosa


Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz dos ombros pura e a sombra 
duma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta pequena dor à portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 

por ti Alexandre O'Neill

domingo, 10 de junho de 2012

Sonhos

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"Quando os nossos sonhos se acabam, Fica um vazio imenso... Uma vontade de parar... De desistir de tudo... É um período difícil, em que os dias, as horas, e até os segundos são longos... Não conseguimos progredir... Falta vontade... Falta motivação... Nos fechamos para tudo e para todos como se nada importasse... nada tivesse algum valor... vamos nos destruindo pouco a pouco... Porque será que muitas coisas em que acreditamos chega ao fim?