segunda-feira, 17 de setembro de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Carta do Exílio
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I
Te saúdo... te beijo
Que mais posso dizer
Por a onde começar e como terminar
O tempo gira sem descanso
E tudo que passou, no meu exílio
Uma bolsa em que ponho pão seco
Um caderno em que descarrego às vezes
Em que cuspo todo meu ódio
Por onde começar
Tudo o que se disse ou o que se dirá,
Pode terminar com um abraço ou um aperto de mãos
Fará que o exilado volte para casa
Fará cair a chuva
Fará que brotem penas
Nas asas do pássaro perdidos...
Esmagado
Por onde começar
Te saúdo... te abraço, depois...
II
Eu disse no rádio... digam-lhe que estou bem
Disse ao pássaro
Se vais para ela
Não me esqueças e diz-lhe
Que eu me sinto bem
Que eu me sinto bem
Meus olhos continuam vendo a luz
A lua segue no céu
E meu velho traje
Não se esfarrapou até agora
Rasgou-se um pouco
Mas eu o cosi... e ainda me cobre
Agora sou um jovem de vinte anos
Pensa um pouco... tenho vinte anos
E sou como todos os jovens
Ó mãe
Afronto a vida
E suporto a carga que cada homem leva
Trabalho
Em um restaurante... lavo pratos
Preparo o café dos clientes
E colo em meu rosto triste um sorriso
Para entrar no tom
III
Me sinto bem
Tenho vinte anos
Sou como todos os jovens
Fumo, me debruço sobre os muros
E assobio às meninas
Como os outros
Porque são agradáveis as meninas ó irmãos
Sem elas
Quão mais amarga nos seria a vida
E meu companheiro disse... tens fome?
Sinto que tenho fome... tens pão?
"Irmãos... que dignidade se pode ter
Quando se tem fome?"
Me sinto bem
Me sinto bem
Tenho um pão dourado
E uma cestinha com grãos
IV
Ouvi no rádio
A mensagem dos exilados... aos exilados
Todos disseram: estamos bem
Ninguém está triste
Como está meu pai?
Continua, como sempre, amando
A coração
E os filhos...
A terra e as oliveiras
Como estão meus irmãos
Converteram-se por acaso em funcionários
Um dia ouvi meu pai dizer
Todos serão professores
(Passarei fome para comprar-lhes livros)
em nossa aldeia ninguém sabe ler
como vai nossa irmã
cresceu,
pediram-na por ventura em casamento?
Como está minha avó
Diante da porta como de costume?
Nos abençoa sempre?
Como anda a casa?
E nosso gasto umbral... a lareira...as portas?
Ouvi no rádio
A mensagem dos exilados... aos exilados
Tudo vai bem
Mas eu estou triste
Me assaltam as dúvidas... devoradoras
O rádio não me trouxe notícias de vocês
Nem sequer tristes
Nem sequer tristes.
V
A noite - ó mãe - é um lobo faminto, cruel
Que acossa o estrangeiro em todas as partes
E que abre o horizonte aos fantasmas
O bosque de álamos sempre enlaça os ventos
Que crime cometemos - ó mãe
Para morrer duas vezes
Uma vez na vida
E outra na morte
Sabes tu quem faz brotar lágrimas?
Suponha que um dia esteja doente
E que meu corpo seja abatido pelo mal
A noite guardará a lembrança
De um refugiado que até aqui chegou e não voltou nunca para seu país
A noite lembrará
Um refugiado morto sem sepultura
Ó, bosque de álamos!... lembrarás tu
Que este que foi abatido debaixo de tua sombra
Era um homem
Lembrarás que sou um homem
E preservarás meu cadáver da capacidade dos corvos?
Mãe... ó mãe
A quem escrevo estas folhas
Que correio te as levará
As vias terrestres, aéreas e marítimas
Estão fechadas
Igual que o horizonte
E tu mãe
E o senhor meu pai, meus irmãos, meus parentes, os companheiros você
Oxalá estejam vivos
Talvez estejam mortos
Talvez, como eu, estejam sem endereço
Que dignidade pode ter o homem
Sem pátria
Sem bandeira
Sem endereço
Que dignidade?
domingo, 26 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Frustração
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Miguel Torga, in 'Diário XV'
sábado, 30 de junho de 2012
Portugal Podre (2012) performance efémera e mal cheirosa
Adeus Português
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti Alexandre O'Neill