sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHER

Marta e eu

 

A mulher não é só casa

mulher-loiça, mulher-cama

ela é também mulher-asa,

mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer

dessa antiga condição

a mulher soube trazer

a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar

e ordenado à cozinha

e impôs a trabalhar

a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto

mas também de construção

para um filho crescer farto

para um filho crescer são

A posse vai-se acabar

no tempo da liberdade

o que importa é saber estar

juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem

naquilo que a gente quer

é igual dizer meu homem

ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ana Moura e Camané | Sociedade Portuguesa de Autores | Prémio Autores 2011

IN MEMORIAM

GRITO HUMANO contra a barbárie que nos fustiga!

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Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço,
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.
Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!
Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso.
Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue.
Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.
Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco,
A arma do ladrão,
A marca do vencido.
Que o sangue que era o seu o farejem os cães
Nas veias de seus filhos.
Que o sangue que era o seu se lhes veja nas mãos,
E lhes aperte os pulsos como algemas de lodo,
Lhes carregue o olhar como um sopro de infâmia,
Lhes assinale a testa como um escarro de fogo,
Lhes atormente os passos como um peso de lama.
Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
o faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.


ARY DOS SANTOS

domingo, 23 de dezembro de 2012

Poema de Natal


Foto: Poema de Natal <br /><br />Tu que dormes a noite na calçada de relento <br />Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento <br />Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento<br />És meu irmão amigo <br />És meu irmão <br />E tu que dormes só no pesadelo do ciúme <br />Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume <br />E sofres o Natal da solidão sem um queixume<br />És meu irmão amigo <br />És meu irmão <br />Natal é em Dezembro<br />Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro <br />É quando um homem quiser<br />Natal é quando nasce uma vida a amanhecer <br />Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher <br />Tu que inventas ternura e brinquedos para dar <br />Tu que inventas bonecas e combóios de luar<br />E mentes ao teu filho por não os poderes comprar<br />És meu irmão amigo <br />És meu irmão <br />E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei <br />Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei<br />Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei <br />És meu irmão amigo <br />És meu irmão<br />Natal é em Dezembro <br />Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro <br />É quando um Homem quiser <br />Natal é quando nasce uma vida a amanhecer <br />Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher <br /><br />Ary dos Santos

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Ary dos Santos