quarta-feira, 18 de junho de 2008

Plateia

Não sei quantos seremos, mas que importa?!

Um só que fosse, e já valia a pena.

Aqui, no mundo, alguém que se condena

A não ser conivente

Na farsa  do presente

Posta em cena!

 

Não podemos mudar a hora da chegada,

Nem talvez  a mais certa,

A da partida.

Mas podemos fazer a descoberta

Do que presta

E não presta

Nesta vida.

 

E o que não presta é isto, esta mentira

Quotidiana.

Esta comédia desumana

E triste.

Que cobre de soturna maldição

A própria indignação

Que lhe resiste.

 

Miguel Torga (1907-1995) "IN De Palavra em Punho"

Imagem: NET

12 comentários:

Sophiamar disse...

"E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste.
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste."

Amiga, eu sou uma apaixonada da poesia. Paixão que me veio do leite, do peito. Já a minha mãe o era. E em minha casa a poesia tinha um lugar privilegiado. Até à mesa se falava deste mundo. Apaixonadamente! Mas a minha poesia preferida é a que contém mensagem / crítica social. Vou passar a explicar, falar do amor como fala Florbela eu gosto, mas falar do amor como fala Torga eu gosto mais. Mas Torga vai mais além, fala da vida. E se ele a conheceu nas torgas que o viram crescer, no Brasil para onde foi chamado por um tio, nas terras onde foi arrancando pedaços à vida para sobreviver!
Torga canta a terra, o pão, a labuta, o amor, a desigualdade, a injustiça e nunca aceitou subsídios para publicar fosse o que fosse. Não compactuava com o regime. As teias que a vida lhe teceu, e foram algumas, detectou-as com a sua inteligência e não se deixou tragar. Era osso duro de roer. Assim o fossem muitos mais. Já me alonguei mas este transmontano é serrano como eu.
Beijinhos, amiga.

Bem hajas!

Tem um bom dia

Não te canses de publicar homens e mulheres desta envergadura.

Carminda Pinho disse...

Olha Ana, já não sei o que lhe chame, se sintonia se coincidência...mas a verdade é que parece que temos gostos comuns, e na poesia isso está à vista.
Lá a Terra, aqui as gentes...mas o punho que as escreveu, foi do mesmo Homem, Miguel Torga.

Beijos

peciscas disse...

Poderia dizer o mesmo que a Carminda.
Sem qualquer hesitação, assumo este poema do Torga, homem inteiro, como um dos meus lemas de vida.
E quando passo por este teu espaço, só sei dizer que estou de acordo.
Por isso e por tudo o resto, gosto tanto de vir aqui.

elvira carvalho disse...

É um poema intemporal. Daqueles que se escrevem hoje e daqui a 100 anos estão actuais. Infelizmente para a humanidade.
Vou confessar-lhe uma coisa. Até à bem pouco tempo eu não conhecia Miguel Torga, a não ser de nome.
Depois tive um amigo, que era apaixonado por Torga. Conhecia toda a sua obra e engraçado para qualquer situação ele tinha sempre um poema do Torga para citar. Assim me entusiasmou e me levou a ler Miguel Torga. Hoje eu penso que ele foi um mestre na arte de utilizar as palavras, e transformá-las em poesia.
Um abraço e boa noite

looking4good disse...

Miguel Torga foi um grande poema e escritor, um dos que mais gosto e merecia ter sido Nobel. Talvez a sua humildade (e humanidade ) o impediu. Continuação de uma boa semana (pode ser boa de verdade... se amanhã ganharmos). :)

samuel disse...

Grande texto do Torga!
"Irrita" de tão actual... mas realmente a culpa não é dele...

Abreijos

elvira carvalho disse...

Passei. Deixo um abraço, votos de boa noite.

Paradoxos disse...

Genial!!!
beijão querida amiga Ana

Edu

peciscas disse...

Neste fim de semana estou a falar de ti...

Carla disse...

uam foto expressiva para palavras com a força que Torga consegue dar-lhes
bom fim de semana
beijos

Sophiamar disse...

Passei para te deixar um beijinho e desejar um bom fim de semana.

Nuno de Sousa disse...

Bem o amigo Ant�nio divulgou o teu blog no seu blog peciscas e c� estou para uma visita e bem que dizer deste seu blog... fant�stico e com um som maravilhoso. Parab�ns pelo que aqui tem, gostei do q estou a ver e c� voltarei concerteza Ana.
Belo texto este em forma de poema do grande Miguel Torga.

Cumprimentos e continue,
Nuno de Sousa