sábado, 30 de junho de 2012

Portugal Podre (2012) performance efémera e mal cheirosa


Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz dos ombros pura e a sombra 
duma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta pequena dor à portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 

por ti Alexandre O'Neill

1 comentário:

elvira carvalho disse...

Finalmente um amigo conseguiu descobrir o que se passava com o meu pc e repará-lo.
Peço desculpa pela ausência, mas se a princípio conseguia abrir alguns depois deixei por completo de conseguir abrir. Levei horas a correr o antivírus a desinstalar programas e a reinstala-los e nada. Por fim um amigo através de um amigo virtual, através de um programa de controlo remoto, levou quase três horas a mexer nele e conseguiu pô-lo como novo. Bem Hajam os amigos.
Não conhecia o poema e não entendi bem se era uma homenagem a O'Neill ou se era dele o poema.
Um abraço e bom fim de semana